sábado, 20 de março de 2010

Soulmate

Gustavo estava atordoado. Nunca havia se sentido desse jeito antes. Sem ar, sem fala, sem ela. Helena parecia, à primeira vista, uma garota como outra qualquer que Gustavo conheceu em uma festa. Com o decorrer do tempo e das conversas as coisas em comum entre os dois chegavam a irritar aos que assistiam de fora. Os mesmos filmes, os mesmos sonhos, as mesmas viagens, os mesmos pratos, o mesmo desejo: que a Inglaterra e o Brasil fossem vizinhos.

            Helena viera com os pais passar uma semana no Brasil e, assim, conhecera Gustavo. Ele pensava nela dezesseis horas por dia, nas outras sonhava. Seu sorriso hipnotizante, seus olhos de mar, suas curvas magníficas, seu coração. De todos os itens este era o mais cobiçado.

            Todos os dias antes de ligar pensava que estavam a um telefonema de suas necessidades. Todos os dias depois de ligar percebia que estavam um degrau acima na saudade. O par perfeito existia, pensou, só não estava no lugar perfeito. Não estava ao seu lado.

            “Estou pensando em viajar para a Europa”, Gustavo ouviu sua tia falar “morro de vontade de conhecer e, afinal, não é tão longe”. As palavras ecoaram fagulhas de esperança. A Europa não é tão longe. Gabriel juntou parte do seu salário de assistente de escritório e, em três meses, estava com a passagem em mãos rumo ao English Landscape Park, onde iriam se encontrar.

            Três horas após o combinado, Gustavo, num misto de dúvidas e revolta, decide ir embora e dar um fim a essa história. Onde estava com a cabeça? Já havia escutado sobre relacionamentos à distância bem sucedidos, mas isso era ridículo. Levantou-se e começou a caminhar, perguntando-se o porque da omissão. O amor virou algo. Não ódio. Definitivamente não. Algo indescritivelmente perturbador e perfurante.

            Mergulhado em decepção, Gustavo é despertado por um chamado. Quem seria a mulher que corria sofregamente em sua direção? A mulher morena de média estatura pediu uns segundos para recuperar o fôlego. Chamava-se Maria. Trazia uma rosa vermelha e um bilhete nas mãos. “Desculpe”, dizia o bilhete. Não eram necessárias mais palavras. Havia entendido. Uma lágrima brotou em cada olho. A estranha o afagou como se também guardasse ela mesma uma cicatriz de ferimento semelhante. “Café?”, disse Maria. Como ela sabia que café sempre o acalmava?

            No Café, conversavam sobre tudo em um tom relativamente descontraído, na medida do possível. Maria era amiga de Helena e nada além disso foi dito. Outras coisas foram ditas. Histórias foram contadas. Assim como as coincidências, afinal, quantas pessoas no mundo sonham em ser astrônomas para ficar mais perto das estrelas? Quantas pessoas no mundo sonham e visitar Madagascar só porque assistiram ao filme? Quantas pessoas no mundo se conhecem em Londres, sobre tais circunstâncias, e se apaixonam?

            Hoje Gustavo e Maria são casados. Encontraram um no outro A Felicidade de que tanto ouviam falar e liam nos livros. Era sempre primavera em Londres. Ele vê nela abrigo, a mão a qual ele deve segurar com o passar do tempo. Ela vê nele o mundo, o que ela mais gosta nela mesma. Gustavo às vezes se pergunta o que teria acontecido se Helena, a mulher que ele acreditava ser a sua alma gêmea, tivesse ido ao parque naquela tarde. Maria se pergunta o que teria acontecido se não tivesse espionado as conversas da amiga com Gustavo. Pergunta-se o que seria de sua felicidade se ela não tivesse sabotado aquele encontro. Se não acreditasse em alma gêmea... 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Insanidade inocente

O escritor é um fingidor. Finge tão completamente que chega a sentir a dor que pretendia fingir que sente.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O GRITO

Sinto-me parte de um mundo no qual plumas de pavões definem mais que a imensidão do casco da tartaruga. Uma selva de mordidas e arranhões e poucos abraços. Um mundo onde o conflito, muitas vezes desnecessário, se torna desgastante e, no fim das contas, você só acumula espinhos.

Fazer de mim esse ser tão metonimicamente dividido pode parecer martírio. Mas não é! Não falo de um “eu” e sim de um “nós”. Pretensiosamente afirmo que TODOS já levaram um “tapa na cara” e guardam a cicatriz até hoje. Uns na espera pela devolução. Outros para se lembrar de nunca tornar a dar a face ao outro.

Quando os tapas sobrepõe a perseverança... quando constelações de espinhos tomam conta do coração (e da garganta) o melhor a fazer é botar pra fora, certo? Mas como explodir sem destruir?

Não gosto de gritar, mas esta se revelou uma boa solução nesses dias de sufocamento. Inofensivo e eficaz. O grito é a voz da alma para ela mesma e para mais ninguém. Em tempos onde sobram espinhos e faltam espelhos, olhar para si mesmo às vezes pode beneficiar. Vivemos tão freneticamente buscando aprovação (por vezes a nossa própria aprovação) e esquecemos que por trás de aprovar mora o julgar, e quem é você para julgar alguém?

Não escrevo. Grito! Em um suspiro que me proporciona alívio e angústia. Entristece-me esse morrer tão solitário. Rios de lágrimas invisíveis correndo aos pés insensíveis de quem me mata e eu sigo morrendo... pelo menos até quando acabarem os gritos e começarem as explosões.     

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A namoratriz

            Em eixo de um deus de muitos nomes sigo a correnteza que me foi imposta. Em um rio sem começo ou fim vivo e revivo quando sou requisitado. Em um dia monótono como qualquer outro vislumbrei à encosta um vulto do que parecia ser uma mulher. Fosse o que fosse, me intrigava. Eu sei que nenhum de nós deveria deixar o fluxo do rio, mas algo além de mim me empurrava para a margem do rio. Encontrei terra firme e estranha. Eu estava, definitivamente, fora do meu espaço.

            Segui caminhando por floresta densa e nebulosa. Quando esta findou, a paisagem desenhou diante de meus olhos um belíssimo alvorecer. Vi-me em uma praia de areias brancas parcialmente deserta, não fosse pelo vulto caminhando ao longe. Tentei correr para alcançá-lo, mas era como se algo fincasse minhas pernas fundo na areia fofa. Enquanto assistia ao esmaecer de meu objetivo ao longe, ouvi uma voz que nunca antes tivera ouvido:

 

-- Oi.

-- Olá.

-- O que você está fazendo sozinho aqui na praia? Está perdido? – Ao me virar em direção à voz me deparei com uma belíssima mulher. Ela estava acocorada, mas podia-se dizer que não era alta. Tinha pele dourada e cabelos negros lisos até o meio das costas. Uma verdadeira musa de cinema. Seus olhos castanhos cor de mel me encaravam, procurando uma resposta.

-- Perdido. Não há palavra mais adequada. Eu estava procurando por uma pessoa.

-- Eu posso ajudar de alguma forma? – Me vi mudo diante da pergunta. Não sabia onde nem por quem procurar.

-- Eu não sei.

-- De onde você é? – Assustei-me com a pergunta repentina, que ressoou no meu âmago. De onde eu sou?

-- Venho aqui do lado. Do rio.

-- Não conheço. Estranho como as coisas mais inusitadas nos avizinham e muitas vezes nem tomamos conhecimento delas. – Fez-se um estranho silêncio. Daqueles que as pessoas sempre tentam evitar, mas que diz milhões de coisas. – Então, por quem você estava procurando?

-- Não sei ao certo.

-- Não entendi.

-- Sabe quando você vê uma pessoa e, mesmo sem conhecê-la, sabe que ela vai ser importante na sua vida de alguma maneira?

-- Acho que sim. – Ana aquiesceu. De alguma forma sentiu-se sem graça com o comentário.

-- Foi o que aconteceu. No momento em que eu a vi eu soube que teria de encontrá-la.

-- É uma mulher? – Lucas não sabia, mas preferia pensar que sim.

-- Acho que sim, não vi de perto. – Os dois cessaram a conversa por um instante. O tempo passara despercebido e, pelo Sol forte, já passava de meio dia. Incrível como o tempo deixa de existir quando estamos com quem gostamos. Sim. Podia-se dizer que Lucas gostava de Ana. Não sabia explicar o porquê. Seria pela sua voz doce? Pelo seu perfume de lírios? Ou simplesmente porque ela fora a primeira pessoa com quem conversara nessa terra estranha à sua? Por que ele deveria encontrar um porquê?

-- Eu sempre gostei do mar. As ondas são tão enigmáticas. Te dragam para o mar como se fosse um ente querido e te jogam à areia como se fosse o pior dos seres humanos. – Disse Ana, quebrando o silêncio. – Mesmo sem entendê-las admito que elas têm um propósito. Não sei ao certo qual, mas tudo nessa vida tem uma razão de ser.

-- Até nós?

-- Principalmente. Todo ser humano tem sua razão de ser. Senão, não seria.

-- Não falo de todos os seres humanos, falo de nós. Você acha que eu e você, aqui e agora, temos a nossa razão de ser?

-- Acredito mais a cada segundo que passa. – Os olhos se cruzaram como não haviam feito antes. O coração acelerou. A boca seca. Respiração descompassada. Borboletas na barriga? Todas. Um movimento adiante. Lábios se tocando. Coração quase parando de tanto bater. Um beijo. O beijo.

            Ficaram na praia o restante da tarde. Conversando. Rindo. Pensando o quão inusitada era a situação que estavam vivenciando e o quanto não queriam que acabasse. Um por do Sol fenomenal se desenhava no horizonte. Ana olhou para Lucas com o olhar perdido, triste de certa forma.

 

-- Tenho que ir.

-- Para onde?

-- Embora. – Lucas sentiu seriedade e pesar no tom de voz de Ana.

-- Por quê? Eu pensei que quisesse ficar.

-- Eu quero. Mas preciso ir. Sem explicações. Só desculpas. Apenas ir.

 

            Ana beijou Lucas ternamente. Ele sabia que ela não queria ir. Então por quê? O gosto salgado no beijo dizia a Lucas que era hora de partir. Voltar para o lugar de onde nunca o deviam ter deixado sair. Seguindo o ritmo de seu rio como páginas de livros, caminhando para o fim do romance. Lucas olhou para Ana uma última vez e notou que ela chorava lágrimas que não eram suas. Viu nela um ser transbordante de sentimentos emprestados. Ana não era Ana. Quem era então? Mais um vulto naquele dia tão extra-ordinário.

            Lucas caminhou confuso pela floresta, rumo ao único lugar que podia chamar de casa. À beira do rio, estacou. Seria o bastante viver na correnteza do rio depois de ter gozado da beleza das ondas do mar? Atirou-se no rio. Sem canoa e sem esperança. O ar lhe faltava agora. Pensava em Ana e em todo o resto. Flashbacks permeando sua mente. O peito pesava. Quanto mais afundava nas águas do rio mais frio sentia. Sentia a vida esvaindo-se de seu corpo. Esperava pela luz branca, mas o que veio foi escuridão. Num repente Lucas se viu em sua canoa, trilhando o caminho traçado pelo rio. Entendeu, então, que não podia morrer porque seu criador não queria que assim fosse. Não podia ter Ana porque ela não fazia parte do seu mundo. A aparente fuga não passava de uma ilusão premeditada. Parte de sua história.    

sábado, 10 de outubro de 2009

In my time of dying...


I’m in front of the edge, wondering what led my life to this moment. Always surrounded by problems I have peace presented to me, just seven steps ahead and some more down. If only I could not to be scared. The fear overcoming the will. But in a unexplainable way the will is somehow strengthened by the fear. One step ahead.
My life was linear, constant, stuck. I lost count of the days I went to bed thinking of my day and seeing that I could do things much better. Not better for the others or for my image. Better for myself. But that is past. What I did wrong and what I did not just does not matter now. One step ahead.
Happiness? How can I define something that I did not know? One more step ahead.
What to say about love? I was left on a corner. I always felt like people liked me because of someone else. I wonder if I was alone on the crew if I would still be called a friend. Did you ever have this feeling that sometimes people just do not love you enough? Why sometimes people that know you can not see a fake smile? Sometimes you are in need of a hug, a word, heat! Sometimes you have. Sometimes. One more step ahead.
One thing is for sure. I do not regret myself of anything I did. I did cry dry tears over things that went to roads I did not want them to. I wonder if I could do some things different if my life would be better now. But for all my life I was myself. And, in a way, that is what led me here. One more ahead.
I miss the time in which life was easier. The wind used to bring me new smells and feelings. The old problems do not dare themselves to compare to the nowadays ones. Everything was colorful and bright and if I looked to the future I would see hope. But not anymore. Ahead I go.
I prefer to believe in reincarnation. Another chance to live right. To take the leads of my life! Staring at the abyss I wonder if it would be possible to change the course of the river now. Would I still have the time to make things right? “I am a talker taking action!”. These words were never true. Then what was I doin’? Step.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Reencontro

Há não muito estou só. Minha alma-gêmea de mim se apartou e essa condição de sobrevida que tenho não mais me alimenta. Sem firmamento, me encontro perdido em um redemoinho infinito. Envolto em voltas, caminhando em linhas tortas. Mas estou cansado! Volto a visar o norte. Meu norte.
Vozes me dizem que estou me precipitando. Que o tempo irá curar as feridas e tudo se acertará mais para frente. Chega de clichês! Quero secar as lágrimas agora. Tirar essa adaga do meu coração pulsante e colocar a rosa que a ele pertence. Fazer sorrir por mais uma vez a felicidade em mim.
Liguei. Disse que precisávamos conversar, sem revelar o tópico. Esperei-a no mirante. Apesar das voltas que o mundo deu, ambos gostamos do lugar. Aonde tudo começou. E vai recomeçar.
Ela aparece, contra o vento, uma deusa. Me olha com os olhos de sempre, mas não com o mesmo olhar. Caminha ansiosa, mas está longe de ser a ansiedade que uma vez abateu nossos corações. Respiração desenfreada. Coração descompassado.

- Olá – disse ela.
- Oi.
- Como você está?
- Bem e você?
- Bem também.
...
...
- Por que mesmo, hein?
- Por que o quê?
- Por que acabou?
- Por nada que possa ser explicado...
- Podíamos nos dar mais uma chance.
- Não podíamos... Hoje não te amo como ontem.
- Você disse que ficaríamos bem.
- E estamos. Foi melhor assim.
- E se bem não for o bastante pra mim? E se eu quiser extraordinário?

Ela segurou minha mão. Olhou pra mim. Sorriu. Senti que procurava palavras para dizer, mas não encontrava. Eu encontrei. Beijei-lhe o rosto. Meia volta. Hoje ainda só, rumo ao norte.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Música

Este blog já foi de blog à poesia. Faltava música. Bem, não falta mais. Essa é a minha mais nova criação. É tão ruim quanto as outras. Vale a pena ressaltar alguns detalhes:

- Eu não sou cantor.

- A qualidade do audio está ruim, mas é só ouvir com fone que fica bem melhor.

- Errei alguns detalhes, não gravei de novo pra corrigir por preguiça.

- Vocês devem reparar que eu fico olhando pro lado 95% do vídeo. Além de tímido eu ainda não gravei a letra toda da música. Meu bebê é muito nova ainda, não tem nem nome.

Acho que é isso.

Espero que gostem.

Enjoy! XD

Agradecimentos especiais à minha camera girl Rafaella!

Segue a letra para vocês acompanharem batendo palminha..XD

Ele queria curtição,
Ela um romance de novela.
Ele queria ter ela na mão
E ela a mão dele na dela.

Cansada de dias nublados
Sonhava com um amor só seu
Sua própria história de cinema
O seu Romeu.

Enquanto ele viajava
Sem norte, sem direção.
Procurando o que procurar
Meio na contramão.

Os seus olhos se encontraram.
Tudo desapareceu.
E ninguém reparou,
Que o mundo parou.

Um beijo doce entre o Sol e a Lua.
Correndo de mãos dadas debaixo de chuva.
Inexplicável é o que a gente sente
Nasceu tão de repente, no coração da gente.

Inesperadamente
O amor aconteceu.
Eu me encontro ao me perder
Na luz dos olhos teus.

Caminho nas estrelas
Sob a luz do luar
Coração em desalinho 
A acelerar

Dois corações uma batida.
Julieta e Romeu.
E a sua história de cinema
Finalmente aconteceu.

Um beijo doce entre o Sol e a Lua.
Correndo de mãos dadas debaixo de chuva.
Inexplicável é o que a gente sente
Nasceu tão de repente, no coração da gente.

Minha boca indo de encontro à tua.
O mundo para e o filme continua.
E a nossa história que nasceu tão de repente
Acaba em um felizes para sempre.